A história de Jim Jones e do
Templo do Povo permanece como um dos capítulos mais sombrios da história
moderna. O que começou com promessas de igualdade racial e justiça social
terminou na maior perda de vidas civis americanas em um único ato antes do 11 de
setembro: o massacre de Jonestown. Mas como um pregador de Indiana conseguiu
convencer mais de 900 pessoas a cometerem o que ele chamou de "suicídio
revolucionário"?
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Das Raízes em Indiana
à Obsessão pelo Poder
Nascido em 1931, em Indiana, James
Warren Jones, ou Jim Jones, sempre foi uma criança peculiar. Relatos de
vizinhos e conhecidos indicam que, desde cedo, ele demonstrava uma fascinação
incomum tanto pela religião quanto pela morte. Enquanto outras crianças
brincavam, Jones realizava funerais simulados para animais e demonstrava um
comportamento controlador.
Apesar de uma infância difícil e
solitária, ele desenvolveu uma oratória poderosa. Jones estudou diversas
doutrinas, desde o pentecostalismo até as ideologias de Karl Marx e Adolf
Hitler, criando uma mistura perigosa de fé e fanatismo político.
Em 1955, ele fundou o que viria a ser
o Templo do Povo. Diferente de muitas igrejas da época, Jones
pregava a integração racial total, o que atraiu muitos seguidores
afro-americanos que se sentiam marginalizados. Ele utilizava supostos
"milagres" de cura para ganhar a confiança dos fiéis, embora
ex-membros tenham revelado posteriormente que tais feitos eram encenados,
utilizando até mesmo órgãos de animais para simular a remoção de tumores.
O Sonho da Terra Prometida:
A Criação de Jonestown
Com o passar dos anos, o comportamento
de Jones tornou-se mais errático e paranoico, exacerbado pelo uso de drogas.
Sentindo-se perseguido pela mídia e pelo governo dos Estados Unidos, ele
convenceu seus seguidores de que precisavam fugir para construir uma utopia
socialista livre da opressão americana.
O local escolhido foi uma área remota
na selva da Guiana, na América do Sul. Batizada de Jonestown,
a comuna foi vendida aos fiéis como um paraíso na terra. No entanto, a realidade
encontrada pelos que se mudaram para lá em meados da década de 1970 foi brutal.
Longe de ser um refúgio de paz,
Jonestown operava como um campo de trabalhos forçados. Os passaportes eram
confiscados, a alimentação era escassa — baseada principalmente em arroz — e os
membros eram submetidos a doutrinação constante através de alto-falantes que
transmitiam a voz de Jones dia e noite. Qualquer dissidência era punida
severamente.
As "Noites
Brancas" e o Ensaio para o Fim
A paranoia de Jones atingiu níveis
críticos na Guiana. Ele instituiu rituais aterrorizantes chamados de
"Noites Brancas". Durante esses eventos, ele soava o alarme
alegando que a comunidade estava sob ataque de mercenários ou da CIA.
Nesses testes de lealdade, Jones
ordenava que seus seguidores bebessem um líquido que ele dizia conter veneno.
Depois que todos, inclusive crianças, ingeriam a bebida acreditando que
morreriam, ele revelava que era apenas um teste. Esses ensaios macabros
condicionaram a mente dos membros do Templo para aceitar o suicídio como uma
saída inevitável e honrosa.
A Visita de Leo Ryan
e o Dia Fatídico
Em novembro de 1978, o congressista
americano Leo Ryan viajou até Jonestown para investigar denúncias de abusos e
de que pessoas estavam sendo mantidas lá contra a vontade. Embora a
recepção inicial tenha sido festiva, o clima mudou quando alguns membros
entregaram bilhetes pedindo socorro e implorando para serem levados embora.
Ryan tentou partir com um pequeno grupo
de desertores, mas a tragédia já estava armada. Enquanto se preparavam
para embarcar no aeroporto de Port Kaituma, homens armados da segurança de
Jones abriram fogo, matando o congressista, três jornalistas e uma desertora.
O "Suicídio
Revolucionário"
Ao saber que o ataque ao congressista
não havia eliminado todas as testemunhas, Jones convocou a comunidade para o
pavilhão central pela última vez. Ele argumentou que o governo americano
viria para destruir a comuna e que a única saída digna era o "suicídio
revolucionário".
Em 18 de novembro de 1978, uma mistura de
suco em pó (Flavor Aid) e cianeto foi distribuída. As gravações
recuperadas pelo FBI, conhecidas como a "Fita da Morte", registram o
caos final: crianças chorando, pessoas protestando timidamente e a voz de Jones
insistindo que aquilo não era um suicídio comum, mas um ato político.
Ao todo, 909 pessoas morreram em
Jonestown, incluindo mais de 270 crianças. Jim Jones foi encontrado morto
com um tiro na cabeça, um aparente suicídio, cercado pelos corpos daqueles que
ele jurou proteger.
O legado de Jonestown serve hoje como um alerta histórico sobre os perigos do fanatismo, da manipulação psicológica e do poder desenfreado de líderes carismáticos sobre a mente humana.
