O Mistério da Rua Alice: O Caso Carlinhos e o Sequestro que o Brasil Jamais Esqueceu

Na escuridão, um homem invadiu a residência. Descrito posteriormente como jovem, negro, vestindo uma blusa vermelha e ostentando um cabelo estilo black power, ele sabia o que queria. Exigiu levar "a criança menor". Enquanto trancava a mãe e os irmãos no banheiro, o invasor levou Carlinhos, que vestia apenas uma bermuda azul-marinho. Antes de sumir na noite, deixou um bilhete.

O bilhete e o circo policial

O papel deixado pelo sequestrador era rudimentar, arrancado de um caderno comum. A mensagem exigia 100 mil cruzeiros — uma fortuna para a época — e continha erros de português grosseiros. A perícia mais tarde indicaria que esses erros foram propositais, uma tentativa de confundir as autoridades sobre o nível intelectual dos criminosos.

O que se seguiu foi um exemplo clássico de como não conduzir uma investigação de sequestro. A instrução era deixar o dinheiro sobre uma caixa de cimento no cruzamento das ruas Alice e Dr. Júlio Otoni. A polícia montou uma operação que beirava o amadorismo cinematográfico: agentes disfarçados de pipoqueiros e vendedores de sorvete lotaram o local, disputando espaço com repórteres ávidos por um furo.

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O pai, o industrial João Mello da Costa, cumpriu sua parte. Deixou um pacote no local combinado (contendo notas reais misturadas a papel picado). Mas, diante de tanta movimentação, ninguém apareceu para buscar o resgate. A chance de recuperar o menino ali, naquele momento, evaporou.

Quando a família vira suspeita

Sem o menino e sem pistas concretas, a investigação tomou um rumo sombrio: a própria família passou a ser investigada. A polícia estranhou o comportamento de Maria da Conceição. Para os investigadores, ela parecia calma demais para uma mãe que acabara de ter o filho levado. O fato de ela ter se maquiado para depor e ter faltado à sua habitual sessão espírita na noite do crime foram usados para construir uma narrativa de suspeição contra ela.

O pai também não foi poupado. Dono do laboratório farmacêutico Unilabor, João Mello estava afundado em dívidas. A polícia trabalhou forte na tese de que ele teria forjado o sequestro do próprio filho para arrecadar dinheiro e salvar seus negócios. Essa linha de investigação consumiu tempo precioso, desviando o foco de possíveis sequestradores reais.

Pistas falsas e vidas destruídas

Ao longo dos anos, o caso Carlinhos virou um ímã para oportunistas e pistas falsas. Um marceneiro chegou a ser preso só porque trabalhava numa clínica interessada no terreno da casa da família, mas provou inocência.

Em outro momento macabro, um criminoso confessou ter jogado o corpo de Carlinhos no mar a mando do pai. Uma ossada chegou a ser encontrada na Ilha do Governador, enrolada em arames, alimentando a esperança de um desfecho, ainda que trágico. Mas a ciência negou: os ossos não eram de Carlinhos.

A reviravolta mais dramática veio anos depois, vinda de dentro de casa. Vera Lúcia, irmã de Carlinhos, apontou um funcionário do laboratório do pai, Sílvio Azevedo Pereira, como o homem que invadiu a casa. Ela alegou ter sentido um cheiro químico específico naquela noite. Sílvio chegou a ser condenado a 13 anos de prisão em meados dos anos 80, mas a justiça acabou absolvendo-o por falta de provas materiais irrefutáveis.

O silêncio que dura décadas

O inquérito policial oficial só foi aberto, inacreditavelmente, três anos após o crime. Essa demora custou caro. Evidências se perderam, memórias se confundiram e o rastro esfriou.

Desde 1973, diversos homens apareceram acreditando ser — ou fingindo ser — o menino sequestrado. Testes de DNA foram feitos, expectativas foram criadas, mas o resultado foi sempre o mesmo: negativo. O Caso Carlinhos permanece como uma ferida aberta, um lembrete de que, às vezes, a verdade simplesmente desaparece na escuridão de uma noite de chuva.

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