Se você navega por curiosidades históricas na internet, é quase certo que já cruzou com o termo Anunnaki. Frequentemente associados a teorias sobre alienígenas, engenharia genética e o planeta Nibiru, esses personagens ocupam um lugar de destaque na cultura pop moderna. Mas, ao removermos a ficção científica adicionada no século XX, quem eram eles de verdade?
Para os historiadores e arqueólogos que dedicam a vida a traduzir as antigas tábuas de argila da Mesopotâmia, a resposta é fascinante por si só, sem precisar de discos voadores.
O Que Dizem as Tábuas Sumérias Originais
Historicamente, os Anunnaki não eram viajantes espaciais, mas sim as divindades supremas do panteão mesopotâmico (que engloba as culturas suméria, acádia, assíria e babilônica).
Eles eram descritos como os descendentes de An (o deus do céu) e Ki (a deusa da terra). Ao contrário da visão moderna de "invasores", para os sumérios, eles eram a própria personificação das forças da natureza e da ordem social.
O próprio nome carrega o segredo de sua identidade. Em sumério, a tradução acadêmica aceita para "Anunnaki" é algo próximo de "Semente do Príncipe" ou "Sangue Real". A tradução popularizada na internet de "aqueles que do céu vieram à terra" é uma interpretação poética moderna, não linguística.
Os Principais "Protagonistas"
A sociedade suméria era complexa e seus deuses refletiam isso. Entre os Anunnaki, existia uma hierarquia clara. Os mais poderosos, que decidiam os destinos da humanidade, incluíam figuras que moldaram a religião da época:
An (ou Anu): O patriarca e rei dos deuses, governante do céu.
Enlil: O deus do vento e das tempestades. Era ele quem exercia o poder executivo na Terra.
Enki (ou Ea): O deus das águas doces, da sabedoria e da magia. Frequentemente visto como o protetor da humanidade.
Inanna (Ishtar): A poderosa deusa do amor e da guerra, cuja descida ao submundo é um dos contos mais famosos da literatura antiga.
Esses deuses não vestiam trajes espaciais. Na arte antiga, eles eram representados como humanos robustos, diferenciados apenas pelo uso de capacetes com chifres — o símbolo máximo de divindade na Mesopotâmia — e vestes longas de lã.
Onde Entram os Alienígenas? A Teoria de Zecharia Sitchin
Se os textos antigos falam de deuses, de onde surgiu a história de alienígenas mineradores de ouro? Essa narrativa nasceu em 1976, com o livro O 12.º Planeta, de Zecharia Sitchin.
Sitchin propôs uma teoria radical: os Anunnaki seriam uma raça avançada vinda de um planeta chamado Nibiru, que passaria pelo nosso sistema solar a cada 3.600 anos. Segundo ele, esses seres vieram à Terra em busca de ouro para reparar a atmosfera de seu planeta natal.
A parte mais controversa da teoria sugere que os humanos (Homo sapiens) não evoluíram naturalmente, mas foram criados em laboratório pelos Anunnaki, misturando o DNA alienígena com o de primatas terrestres (Homo erectus), com o único propósito de servirem como mão de obra escrava nas minas.
Fato vs. Ficção: O Veredito da Ciência
Embora a história de Sitchin seja um roteiro de ficção científica empolgante, ela não encontra respaldo na ciência. Arqueólogos e linguistas apontam que Sitchin traduziu textos sumérios de forma isolada e incorreta para encaixar em sua narrativa.
Não há evidências de tecnologia avançada, genética extraterrestre ou mineração industrial antiga nas escavações do Iraque (antiga Suméria). Além disso, astrônomos confirmam que um planeta com a órbita proposta para Nibiru desestabilizaria todo o sistema solar, tornando a vida na Terra impossível.
O Legado dos Anunnaki
Na realidade, o destino dos Anunnaki foi o mesmo de muitos deuses antigos: a transformação cultural. Com o passar dos milênios, a religião mesopotâmica deu lugar a novas crenças, e os antigos "juízes do destino" tornaram-se mitos, influenciando indiretamente narrativas bíblicas e outras tradições do Oriente Médio, mas como figuras espirituais, não físicas.
Para o leitor de história, os Anunnaki reais são um testemunho da capacidade humana de criar sistemas complexos de fé e ordem social há mais de 5.000 anos. E isso, por si só, já é extraordinário.
