Na longa história do Império
Romano, poucos nomes evocaram tanto medo e destruição quanto Átila, o Huno.
Enquanto muitos "bárbaros" buscavam apenas terras ou saque, Átila
representava algo mais sombrio para a psique romana: o fim da civilização.
Conhecido como o "Flagelo de Deus", ele não apenas derrotou exércitos
romanos, mas submeteu os maiores impérios da época a uma relação de vassalagem
humilhante, cobrando preços exorbitantes pela paz e deixando um rastro de
destruição que marcou gerações.
Leitura recomendada:
O Domínio pelo Medo e pelo Ouro
A relação de Átila com Roma não
era apenas de guerra aberta, mas de extorsão sistemática. O medo que ele
impunha era tão grande que os imperadores romanos, tanto do Oriente
(Constantinopla) quanto do Ocidente (Ravena), preferiam esvaziar seus tesouros
a enfrentar sua ira.
No início de seu reinado, ao lado
de seu irmão Bleda, Átila forçou o Império Romano do Oriente a assinar o
Tratado de Margo. Os termos eram humilhantes para os romanos: eles concordaram
em duplicar o tributo anual que já pagavam, elevando-o para 700 libras de ouro.
Além disso, Roma foi proibida de acolher inimigos dos hunos e obrigada a abrir
seus mercados fronteiriços aos comerciantes bárbaros.
Mas a fome de ouro de Átila era
insaciável. Quando sentia que os romanos não estavam cumprindo sua parte ou
simplesmente queria mais recursos, ele lançava ataques devastadores. Após uma
campanha brutal nos Bálcãs, ele forçou o imperador Teodósio II a triplicar o
tributo anual para impressionantes 2.100 libras de ouro, além de exigir o
pagamento de 6.000 libras de ouro apenas como indenização por quebras de
acordos passados.
A submissão era tamanha que
Nestório, um ex-patriarca de Constantinopla, lamentou a situação geopolítica de
sua época com uma frase amarga: "Eles [os hunos] se tornaram senhores, e
os romanos, escravos".
O "Flagelo de Deus": Terror Psicológico e Destruição Total
Para os cristãos do século V, a
violência dos hunos era tão incompreensível que só poderia ter uma explicação
sobrenatural. Átila não era visto apenas como um rei inimigo, mas como um
instrumento de punição divina enviado para castigar os pecados da humanidade. O
epíteto "Flagelo de Deus" (do latim flagellum Dei, que significa o
chicote de Deus) consolidou essa imagem de que resistir a ele era inútil.
A fama de crueldade não era
infundada. Onde os cascos do cavalo de Átila pisavam, dizia-se que a grama
nunca mais crescia. Quando suas tropas tomaram a cidade de Naísso (atual Niš),
a devastação foi tão completa que, anos depois, embaixadores romanos
encontraram a cidade ainda deserta e as margens do rio cobertas pelos ossos dos
mortos no massacre.
Na Itália, o terror atingiu seu
ápice. A rica cidade de Aquileia foi sitiada e destruída de tal forma que quase
não restaram pedras sobre pedras para indicar onde ela ficava. A ferocidade dos
hunos, descritos pelos romanos como "mais ferozes que a própria
ferocidade", causava pânico generalizado. A simples aproximação de seu
exército fazia com que o imperador Valentiniano III fugisse de sua capital,
Ravena, buscando refúgio em Roma.
O Fim do Pesadelo
O domínio de Átila sobre a mente
romana foi tão poderoso que até sua retirada da Itália foi envolta em lendas. O
Papa Leão I foi creditado por convencer o rei huno a recuar através de
intervenção divina, embora historiadores modernos apontem que a fome e doenças
em seu exército foram os fatores decisivos.
Quando Átila morreu subitamente
em 453, após uma bebedeira em sua noite de núpcias, o Império Romano respirou
aliviado, mas o dano já estava feito. Ele havia drenado a economia romana e
exposto a fragilidade das legiões. Seu legado permaneceu como a personificação
definitiva do "bárbaro" às portas de Roma, um nome que, séculos
depois, ainda era sinônimo de destruição e medo.
