Falar da história do Brasil no século XX sem mencionar Getúlio Vargas é impossível. Por 15 anos ininterruptos (e depois mais quatro), ele moldou a economia, as leis e a identidade nacional. Sua trajetória é marcada por uma dualidade que intriga historiadores até hoje: o ditador implacável e o líder carismático que deu voz ao trabalhador.
A Revolução de 1930 e o Fim da República Velha
Tudo começou com uma ruptura. Vargas chegou ao poder liderando a Revolução de 1930, que pôs fim à hegemonia das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais (a política do café com leite). O que deveria ser um governo provisório logo se tornou um projeto de poder centralizado.
Em 1932, enfrentou a Revolução Constitucionalista de São Paulo. Embora tenha vencido militarmente, Getúlio entendeu a mensagem e entregou uma nova Constituição em 1934, que trouxe avanços como o voto feminino e a Justiça Eleitoral.
O Estado Novo: O Lado Autoritário
Em 1937, alegando a existência de uma ameaça comunista fictícia (o Plano Cohen), Vargas deu um golpe em si mesmo e instalou o Estado Novo. Foi um período de ditadura declarada:
O Congresso foi fechado.
Partidos políticos foram extintos.
Criou-se o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) para censurar críticos e exaltar a figura do "chefe da nação".
O "Pai dos Pobres" e o Legado Trabalhista
Apesar da repressão, foi nesta fase que Vargas consolidou sua base popular. Em 1943, ele unificou as leis trabalhistas com a criação da CLT. Pela primeira vez, o trabalhador brasileiro tinha direito a salário mínimo, férias remuneradas, jornada de oito horas e carteira assinada.
Ao mesmo tempo, Getúlio promoveu a industrialização do país, fundando a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a Vale do Rio Doce, focando na soberania nacional.
A Queda e o Retorno Dramático
O fim da Segunda Guerra Mundial e a queda do fascismo na Europa tornaram insustentável uma ditadura no Brasil. Em 1945, Vargas foi deposto pelos militares. No entanto, sua força política era tamanha que ele retornou "nos braços do povo" em 1950, eleito democraticamente.
Seu segundo governo foi marcado por crises políticas severas e pressões da oposição (liderada por Carlos Lacerda). O desfecho veio em 24 de agosto de 1954: acuado e sob ameaça de um novo golpe, Getúlio Vargas cometeu suicídio no Palácio do Catete, deixando uma carta-testamento que paralisou o país com a famosa frase: "Saio da vida para entrar na história".
